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Nota explicativa
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Entre os papéis deixados por meu avô materno (que afinal nem conheci), achou-se este inusitado diário, referente a uma viagem à Argentina nos meses de janeiro a junho de 1939. Logo ele, coitado, que pareceu nunca ter tido paciência e interesse em cruzar as fronteiras de seu bairro. Teria sido certamente o acontecimento mais extravagante daquele ano - depois, é claro, da eclosão da Segunda Guerra. Mas, para alívio (ou surpresa?) geral, trata-se de um falso diário: meu avô (de quem herdei o nome completo) nunca empreendeu nenhuma viagem. Muito menos esta. A falsificação salta aos olhos, por mais que a letra seja, incontornavelmente, a dele. Não tanto pelos absurdos acontecimentos narrados, pelas acusações (quem sabe injustas) feitas à mulher e aos amigos ou pela mélange cronológica e geográfica do texto, uma mistura de cenários e datas inconcebível num diário e, sobretudo, na sensatez discreta da vida real; nem, também, pelas dezenas de frases, períodos e até trechos inteiros de Machado de Assis (grande paixão do velho) enxertados no texto, sem nenhuma referência ao original. O que torna o diário irremediavelmente insensato é o detalhe de que, no período de tempo aludido, meu avô já se encontrava morto, vítima de um acidente doméstico no Natal de 1938. Paradoxos temporais e factuais à parte, decidi pela publicação do texto, que tem lá seus méritos. Ajudado por uma imaginação sem limites, um pouco de melancolia e alguma galhofa, não há dúvida de que meu avô (de quem herdei também a vocação literária) alcançou afinal aquilo que sempre pretendeu: escrever um livro machadiano - no caso, suas memórias "póstumas"... Que a terra lhe seja leve etc. AFB 7 DE JANEIRO, 1939 Ora bem, faz dois dias que cheguei a Buenos Aires, e ainda não deixei a suíte do Hotel Plaza - nem para o vício diário de comer. Ainda não me animei a conhecer os Cafés e as librerías que alimentam o nacionalismo e outras vaidades locais. Pedi para não ser incomodado - mas agora o excesso de silêncio, esse fermento das lembranças, é o que mais me incomoda. Dois dias, já! Não fosse o visto de entrada, ou o testemunho distraído dos funcionários do Porto, quem haveria de dizer que estou em Buenos Aires? E, mesmo que dissessem, de que valeria? Tanto se morre ao frio quanto ao sol - e nem vale a pena variar de cenário. Tudo é morrer, afinal: melhor seria poupar a viagem. Só as lembranças não morrem. Na trilha que o navio veio abrindo nas águas barrentas do Prata, lancei a primeira mirada a essa terra ignota onde venho parar. Ali, em metáfora discreta, atirei as recordações de casa, que sobrecarregam a bagagem: ao fundo com elas. Para alguma coisa, afinal, servem as proverbiais "águas turvas", além de entupir canos, manchar roupas e florear a poesia barata. Em parte, o ritual funcionou: Paula Filho, Dr. Peregrino Neto, Ferreirinha, meu bom Calixto e sobretudo Marilu, oblíqua e dissimulada como a Outra - aos poucos, todos foram ficando para trás. Da distância e do tempo nascem as saudades, mas sobretudo o esquecimento - eis a minha esperança, a única que também trouxe comigo. A solidão, mais do que a passagem dos anos, tem lá seus efeitos: ainda não estou pronto para prescindir da companhia dos outros, mas já começo a detestar estrangeiros. Da Argentina, só conhecia até hoje o que tinha conferido nos livros: suas guerras banhadas em sangue mas folheadas a prata, o esnobismo cosmopolita desta metrópole quase européia - mas não sei da solidão e dos sonhos de seus habitantes, que talvez se pareçam com os meus. (No caminho de Puerto Nuevo ao hotel, a escassez de relógios públicos me chamou a atenção. Não que esperasse encontrar algum monumento ao tempo, como o Big Ben londrino - mas que outra coisa faz um viajante quando pisa em solo alheio, senão procurar relógios, conferir calendários e agendas e, tão logo possa, iniciar um diário?!) Tarde da noite Tinha razão o Ferreirinha, quando me recomendou o consolo luxuoso do Plaza, cujas suítes ele prefere na hora de exercitar sua forma exclusiva de infidelidade conjugal: uma solteirice com predileção por mulheres casadas. Quanta intuição, a desse maroto, quando me disse que o dinheiro transforma qualquer homem num desconfortável espelho, onde ninguém gosta de reconhecer as próprias ambições e invejas pelo avesso. Principalmente quando se trata de uma riqueza súbita e incalculável, como aconteceu comigo. Sábio - e alegre - Ferreirinha. Conheço poucas criaturas como ele, capazes de dar interesse a um tédio e movimento até a um defunto. Exílio ou aventura? Eis-me aqui, afinal. Não ainda em Buenos Aires, mas pelo menos a léguas de qualquer possibilidade de ouvir falar Dele. Ou de todo o resto. Por enquanto, esta distância me basta, e ainda me ajuda a desfrutar dessa imitação da eternidade que só a impessoalidade dos hotéis oferece. Hélas! Com as costas voltadas assim para o tempo, sem sentir sua passagem, posso ao menos imaginar que sou imortal. E nada - nem um inevitável diário - parece desmentir essa magia. Por mais que isto soe ridículo, é uma eternidade "provisória", nascida certamente da ausência de um calendário à vista, e temperada pela minha recusa em folhear os jornais locais - sem falar, é claro, das "coisas esquisitas" desse mal sem nome e sem cura que me consome a saúde, mas sobretudo o senso de realidade. E tudo isso para quê? Quem sabe apenas para que eu fique um pouco mais parecido com Ele. | ||||||
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